Versa
16 de maio de 2024
PARTE 1
“When I was very young, nothing really mattered to me…”. Foram dez palavras que deram início à grande apoteose que ressignificou a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Por quatro anos, as areias e o calçadão de Burle Marx (Marx, que ironia) foram palco de motociatas e protestos a favor (isso, uma aberração cognitiva), com armas para o alto e autoestima lá para baixo. Entre 2018 e 2022, os quatro quilômetros das areias da praia da Zona Sul foram pintadas de camisetas verde, amarelo, azul e branco, e mãos escorrendo um liquido vermelho, espesso e fibroso: este representando a nuvem carregada de pulsão de morte que atormentou (e matou) a parte de baixo da nossa pirâmide social.
Homens medíocres e mulheres recatadas enfileiravam-se para assassinar a beleza enquanto bradavam por mais privilégios para si mesmos e mais desigualdade entre nós: a crise, além de econômica, é, primordialmente, estética. Enquanto eles (e, sim, vou ser dicotômico) batiam no peito orgulhosos de sua ignorância, nós tentávamos nos reorganizar (coletiva e individualmente). O exercício de manter a libido lá no alto e o desejo pulsando é diário e, cá entre nós, nada fácil. É cansativo, é demorado, é um eterno equilibrar nas duas mãos as vinte bandejas que simbolizam nossas existências. Às vezes um prato cai e estilhaça no chão. Recolher os caquinhos do Velho Mundo sozinho é impossível e, por isso, a catarse do dia 4 de maio de 2024 é tão quente, libidinosa e simbólica.
É claro que as 1,5 milhões de pessoas que dançaram nas areias de Copacabana não vibravam na mesma sintonia: é inocente pensar que todos os fãs de Madonna estivessem sentindo a mesma coisa. Existe conservadorismo e preconceitos contra a população LGBTQIAPN+ mesmo dentro da esquerda mais progressista. Fatores matemáticos dos dois lados contribuíram para criar a Fórmula do Caos que resetou os significados da bandeira do Brasil e a putaria (com muito prazer) transmitida na Rede Globo. Porém, o produto da fenomenologia que configurou o último show da The Celebration Tour de Madonna é positivo para o nosso lado.
As ideologias presentes nos quatro anos do governo anterior foram combatidas, aqui no nosso país, num processo de transformar ressentimento em revolta: a coletividade. Intelectuais, artistas, políticos, civis, trabalhadores, Silvio Almeida, Erika Hilton, Sônia Guajajara, Glicéria Tupinambá, Sueli Carneiro, Amanda Paschoal, Zaila Luz, Amalgamar, Padre Júlio Lancelloti: é eterna a lista de nomes, coletivos, organizações e forças que deram contorno, na prática, à luta pelo coletivo. É injusto não citar alguns deles antes do prato principal: Madonna. Um símbolo que atravessa cinco décadas e algumas gerações.
Uma mulher branca, cisgênera, 60+, descendente de italianos, estadunidense, que fala de Deus e inventou o videoclipe (você sabia dessa, né?). Não que precisássemos de Madonna para nos reorganizar, os nomes que citei acima estão envolvidos em trabalhos de base contínuos, que estão ressignificando a bandeira de Pindorama há muitos anos. Trabalhos em conjunto e sonhos coletivos mais antigos que a própria Madonna. A cantora e seu espetáculo, celebrando a si mesma e o bando que a acompanha, simbolizam a faca que corta o bolo: o tamanho dos pedaços vão ser medidos nas próximas eleições.

A polarização política faz parte da história do Brasil e das democracias burguesas: os Estados Unidos da América, lar de Madonna, são o símbolo máximo dessa polarização pelo globo. Republicanos e Democratas sufocam ideias dissonantes: o Partido Verde (Green Party) e o Partido pelo Socialismo e Libertação (Party for Socialism and Liberation), embora existam, nunca elegeram um representante para nenhuma das Casas Legislativas ou ao Executivo do país. É assim no mundo todo: as forças de cima, embora brinquem de serem antagonistas, se organizam para suprimir as engrenagens verdadeiramente revolucionárias. PT x PSDB, Lula x aquelezinho lá. A polarização funciona para os de cima, para acovardar os de baixo: a única saída é a coletividade.
Madonna subiu ao palco com seus dançarinos, Bob the Drag Queen (uma das últimas grandes vencedoras de Ru Paul’s Drag Race), seus filhos, Pabllo Vittar e Anitta. Madonna fez sua festa repleta de símbolos da comunidade LGBTQIAPN+ mas, leonina que só, o microfone só esteve em suas mãos. Anitta, o totem usado pela misoginia bolsonarista para destilar seus ódios pelas mulheres na classe artística do Brasil, cancelou eventos da divulgação do “Funk Generation” para estar como destaque no maior palco que o Rio de Janeiro já viu. Pabllo Vittar, fotografada aos beijos e abraços com Madonna nos ensaios, caiu nas graças da Força Maior do Pop (não gosto da monarquia e me recuso a me referir à Madonna como Rainha) e foi celebrada com palmas, gritos, uivos, grunhidos e latidos enquanto roubava das mãos ensanguentadas um símbolo nacional.
Não que a camiseta de uma instituição putrificada como a CBF possa simbolizar qualquer coisa além do que é: um Clube do Bolinha que faz o dinheiro girar entre os seus. Porém, a doçura e carisma de Pabllo Vittar acendeu provocações nos armários e pintou alguns pontos da Avenida Paulista de verde e amarelo durante a última Parada do Orgulho de São Paulo. Uma camiseta da seleção brasileira de futebol custa dinheiro, e aqui não podemos ignorar os não-acessos que nossa comunidade e a intersecção das identidades e expressões que nos atravessam colocam nossos corpos. A vontade de Vittar de colorir a Paulista de verde e amarelo foi em velocidade máxima em direção ao muro que impede a ascensão do coletivo: acesso. Neste caso, financeiro.
Madonna impôs sua celebração libidinosa goela abaixo do conservadorismo sentado em frente ao sofá sintonizado na Rede Globo de Televisão: nos telões, homenagens aos amigos que se foram, como Keith Haring, às vítimas do descaso dos governos, medicina e ciência com os corpos que viveram com HIV nas décadas passadas, como Cazuza, e à mulheres, como Erika Hilton e Marielle Franco. No palco de Madonna, embora só sua voz ecoasse pelas torres de som espalhadas pela areia, uma grande celebração tomou forma, principalmente, por via dos corpos de Estella e Estere, filhas gêmeas da cantora, que desfilaram e discotecaram num Ballroom à céu aberto. Acusada por uns e outros (na verdade, muitos) de usurpar o protagonismo dos corpos estadunidenses que criaram a cena ballroom nova-iorquina dos anos 1980, Madonna colocou na tela da maior emissora do país símbolos muito maiores que ela mesma. Isso é possível? É sim.

Enquanto os rottweilers do conservadorismo babavam de raiva por trás de suas telas e do conforto de seus sofás, nas areias cercadas pela instituição financeira Itaú era só festa. Não estive lá: não me arrependo, a experiência audiovisual da Celebration Tour valeu a pena assistir de casa. Enquanto entoava hits de todas as suas eras, Madonna regeu um coral de voz esgoeladas para colocar um laço de sete cores no presente que veio ao Brasil para receber dos brasileiros e dar a si mesma. Do conforto do sofá de Renata, assisti embasbacado todos os símbolos que Madonna, sem nenhuma inocência, centralizava em sua despedida da turnê: o evento ficou marcado como um dos cinco maiores shows da história.
Do lado de lá da história, alinhados a (certo) mau caratismo e muito preconceito, conservadores de direita, de esquerda e de centro tentavam diminuir o impacto do que estava acontecendo diante dos nossos olhos por diferentes razões. Os com motivações eleitorais tentaram associar o financiamento do show a um descaso planejado com o Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo em que Madonna cantava “Live to Tell”, o estado governado por Eduardo Leite (PSDB) enfrentava a fúria da natureza e momentos de falta de (acabamento e) planejamento, a nível municipal, estadual e federal, para enfrentar as mudanças que nós, humanos, estamos causando à Terra. Ideologia, meus caros. Pura ideologia.
No estado que eu chamo de lar, Erika Hilton, deputada federal eleita por São Paulo em 2022, destinou parte de suas Emendas Parlamentares para o estado governado afetado pelas chuvas e protocolou o projeto de lei número 1594/2024, que visa instituir a Política Nacional dos Deslocados Ambientais e Climáticos (PDNAC). E o Eduardo? Leite. Não, não, precisamos ser justos: o próprio governador afirmou ao Portal G1 que “não erramos pela negligência, omissão e negacionismo”. Bicha, melhore.
Enquanto homem gay, e a bicha só usa essa carta na manga quando lhe convém esquivar de críticas assertivas a sua inaptidão política e social, Eduardo Leite tem muito o que aprender com os outros LGBTs que ocupam cargos no Executivo e Legislativo no país. Nem precisa ir muito longe, Eduardo: Daiana Santos, deputada federal eleita pelo Rio Grande do Sul e primeira vereadora LGBTQIAPN+ eleita em Porto Alegre, atua em pautas antirracista, feminista, da educação e saúde pública. Ouviu, Leite? Pú-bli-ca. E tudo perto de casa, gatinho. O governador parece mais preocupado em agradecer o bilionário fanfarrão e seus satélites para acesso à internet. “Dudu” ainda se preocupou com o volume das doações que seu estado estava recebendo, argumentando que isso – as doações para pessoas que viram suas vidas serem carregadas pelas águas do Rio Guaíba – “prejudica o comércio no Rio Grande do Sul”.
Madonna também tem algo a lhe ensinar, Eduardo. A cabala, fonte de aprendizado da cantora desde 1980, prega alguns ensinamentos. Dentre eles, algo que “Dudu” pode trazer para sua experiência terrestre: “Tirando todos os seus bens materiais, seu dinheiro, seu estudo e suas realizações, o que resta é o que você é.” O que você é, “Dudu”?
No mais, fica o convite à revolta: dia 6 de outubro acontecem as eleições municipais por todo o país. No microcosmo, é no município que desgraças como as enchentes do Rio Grande do Sul podem ser evitadas: as comportas de contenção de Porto Alegre estavam sem manutenção há mais de ano. Para as cidades, os vereadores, que serão eleitos no fim do ano, são os responsáveis por supervisionar o trabalho do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), este, responsável pela liberação de recursos e vontade política de mitigar os efeitos das mudanças climáticas que a colonização e o capitalismo industrial causaram.
Nas próximas eleições, que haja paz entre nós e guerra aos senhores.

PARTE 2
Gostaria de começar essa parte do texto com uma reflexão sobre privilégios. Os que atravessam nossa comunidade, principalmente. Privilégio não é uma carta na manga que se usa num momento de aperto ou como estratégia num jogo de pôquer. Privilégio é uma marca que sustenta o corpo e carrega no empírico a essência do que é a guerra de classes. O que fazer com ele é o que mais importa.
Posto isso, que privilégio – de si em comparação aos outros – é a existência individual em si, a Versa, seu idealizador, Gabriel Brugnara, e sua comunidade organizaram, em parceria com agentes da noite, a Versa do dia 16 de maio. A edição, solidária e com lucros revertidos em doações para organizações articuladas para os atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul, aconteceu na The Force, no primeiro mês de caos instalado em São Leopoldo, Caxias do Sul, Cachoeirinha, Veranópolis e Porto Alegre, cidades mais atingidas pela alta dos rios causada pelas chuvas.
Nos primeiros dias, houve ressentimento. Redes sociais foram engajadas em fotos e vídeos que mostravam para o mundo o tamanho do estrago: algo maior que o furacão Katrina, nos Estados Unidos. A gata Katrina fez os Estados Unidos da América movimentarem 120 bilhões de dólares em investimentos para a recuperação do estado de Nova Orleans. A Agência Brasil divulgou, em 20 de junho, que o governo brasileiro destinou R$ 85 bilhões em diferentes investimentos. O buraco é grande e falta terra para esse aterro.
Há quem diga que não é hora de comemorar, e, bom, é parcialmente verdade. Além de uma aposta criativa, produzir uma festa requer um motivo, e não necessariamente um propósito. Com suas práticas de prestação de contas aberta e organização de sua comunidade em doações de seus trabalhos (criativos, como os DJs, e patrimoniais, como nos casos da The Force e de Renato Souza, locador de equipamentos de som e iluminação), a Versa age com propósito. Uma festa boa com música boa e novidades no front é sempre bom. Com propósito, consegue ser melhor ainda.

Antropólogos e cientistas sociais analisam os efeitos do pós-pandemia na Nação Clubber. Enquanto alguns observam que hábitos relacionados a substâncias inebriantes foram ressignificados, outros contornam cenas que se reorganizaram com cada vez mais revolta. Posts e stories de Instagram, e conteúdos que produzem revolta são relevantes, é claro, mas urge a necessidade de um exercício físico, com braços, pernas, cérebro, pés e mãos, para conduzir a roda da revolta em sua trajetória de movimento incessante.
No contexto de inferninhos e galpões abandonados da zona industrial, festas e coletivos podem (e devem) se organizar para mitigar seus efeitos de impacto ambiental e articular com métodos as práticas que já fazem esse trabalho. Práticas que envolvem ESG, claro, como reciclagem de resíduos e a participação das cooperativas que praticam reciclagem, a Versa está acostumada. Preocupação inerente, prática e método estão alinhadas na Versa, que também promove reuniões para entender a opinião de seus colaboradores sobre a experiência que criaram. Fino. Afinal, práticas de ecologia sem métodos que envolvam consciência de classe e de raça são apenas jardinagem.
Com Baroque Angel, Chameleo, Clementaum, Guza, Valentina Luz e os DJs residentes, Tuxe, Joy e Alírio, a Versa solidária se mexeu como pôde para frear o ressentimento e provocar revolta em sua comunidade. O ressentimento é uma caixa maciça e pesada, quase impossível de mexer, que precisa ser empurrada ladeira acima, como o trabalho de Sísifo. A revolta é uma roda com peso suficiente para se manter no chão. Ela só precisa de um leve empurrão para que se movimente por aí. Embora pareça que ainda vai levar algum tempo para aplacar a confusão mental, os danos financeiros da pandemia e que haja força suficiente nesta roda para que o sistema reinicie, são ações de solidariedade que dão o primeiro tranco nesse motoro.
As cenas LGBTQIAPN+ de música eletrônica estão acostumadas a epicentros de afeto que exercem influência em seus entornos. Isso é intrínseco das comunidades que trazem a vanguarda das tecnologias ancestrais que modificam as realidades dos paraísos efêmeros da dance music. Tecnologias como a Listra Trans, instrumento de acesso criado para criar o que muitas vezes o dinheiro não é suficiente para comprar: acesso.
Demonstrações de vaidade e surdez às demandas de público e colaboradores das cenas de música eletrônica são facilmente identificáveis. Facilmente identificáveis porque identifica-se método e prática para obter o real significado da intenção. O céu está repleto de boas intenções com práticas abusivas e métodos egoicos. Não nos deixe cair em contradição, nos envolva em todo o mal, axé.

As regras do jogo físico que praticamos nas pistas e nos fronts são reescritas todas as noites onde dois ou mais se reúnem em volta da música. Como Chuck Roberts cantou em “In the begining”, uma vez que você entra na minha house, ela vira a nossa house. Madonna diria que “Deus é o DJ”, P!nk diria que “a vida é a pista de dança”, Candi Staton diria que “ai que vontade de jogar as mãos para o alto!”.
A Versa diz, eu assino embaixo e peço que repitam comigo: paz entre nós, guerra aos senhores.
Alexandre Mortagua é carioca, Escorpião com ascendente em Touro e gosta de dançar. “Tudo de novo no front” é seu terceiro projeto de longa-metragem. Também é uma extensa pesquisa sobre a noite queer do centro de São Paulo. Escritor, diretor, roteirista e produtor executivo, Alexandre realizou os filmes “Todos nós cinco milhões” (2019), “Ritual na Bahia” (2021) e “Quando o manto fala e o que o manto diz” (2023). Pela Philos, publicou sua estréia na literatura, “Aqui, agora, todo mundo” (2022) e prepara seu novo romance “Anuário” (2025).